quinta-feira, novembro 27, 2008

Demonização da internet

Tenho bronca de uma retórica que trata a internet como ferramenta do diabo.
Não é novidade que isso aconteça com diferentes expressões culturais, quando elas aportam algum tipo de modificação comportamental na sociedade. As mudanças estão ligadas, sem dúvida, a uma perda de controle da circulação de informação ou a formas menos aceitas de representação cultural, como era o caso da pintura expressionista, por exemplo, e também do rock and roll.Pouco depois que foi criada a imprensa, a Igreja divulgou o Index Proibitorium - leitura, só as autorizadas, as moralmente edificantes, as que não questionavam a instituição. Sobre a TV então, o quanto já não ouvimos? É a grande culpada pela violência no mundo, pela deterioração dos costumes, pelo emburrecimento das crianças.
Lembro-me que no início dos anos 80, ao lado de um irmão aficcionado pelos joguinhos do Donkey Kong, eu fazia terrorismo, dizendo que ele ia ficar burro como aquele gorila, se não desgrudasse do jogo. Não ficou. Nem eu tornei-me alienada por que assistia novela e gostava de música brega.
É preciso falar com um pouco mais de sofisticação sobre as influências da tecnologia, da cultura e do convívio social na formação das crianças. O artigo de Ethevaldo Siqueira, "Não abandone seu filho sozinho diante da internet", envereda com rapidez para o discurso da conspiração, da Rede que vai pular para fora da tela e esgoelar a criança. Se a internet não existisse, seu texto poderia igualmente se chamar "Não abandone seu filho". Pois é isso que se espera que os pais façam, já que tem o compromisso de educar, e isso significa mostrar-lhe o mundo, orientar-lhe sobre como ele funciona e auxiliá-lo a ter bases próprias para circular autonomamente por aí.
E como sabemos que a mídia adora fazer barulho, aproveitando essa exacerbação do discurso do medo, já está convidado o Valdemar Setzer, professor do IME-USP, grande apregoador do caráter nocivo dos computadores na formação de crianças e jovens, para participar do Roda Viva, na TV-CULTURA. É torcer para que hajam entrevistadores inteligentes por lá.

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2 Comments:

Anonymous João Carlos Caribé said...

Lilian, seu discurso vem de encontro com meu ponto de vista. Os defensores do status quo atacam o que não dominam e os ameaçam. Depois de assistir a um Descolagem #3 sobre educação (pesquise no technorati se nao foi) assisto a um inocuo entrevistado super teorico, com pontos de vista totalmente contaminados sobre o que desconhece.

Terrivel.

12:44 da manhã  
Blogger Lilian said...

Pois é...
Não estive no Descolagem, mas acompanhei os posts do Sérgio, da Tati, do Roney e vi que a entrevista do Radfahrer tá no ar... Coisa boa de se ver, em contraposição a essa visão que quer congelar um mundo idílico. Gente como o prof. Setzer vira ponto de apoio para os legisladores que querem "enquadrar" a rede, que se sentem no direito de cercear o acesso ao que acham bom ou ruim. Isso é um perigo.
abço!

9:17 da manhã  

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