quarta-feira, outubro 22, 2008

Negociação de significados - faltou dizer

Conversas ficam muitas vezes ressoando na nossa mente dias após a sua concretização. E nós continuamos dialogando com elas, respondendo interiormente, pensando no que faltou dizer.
Os enunciados daquela sessão da defesa de tese têm me acompanhado, o que me parece excelente, pois assim poderei, ao longo do tempo, olhá-los com atenção e compreender que transformações eles podem trazer para a forma como tenho analisado as interações em fórum.
Uma das questões era relativa a idéia de "negociação de significados" no processo de "produção de sentido". Esse deve ser um dos temas mais complexos do trabalho, parece bastante impalpável e muitos vezes indiscernível.
Pergunta o membro da banca: será que é adequado falar em "negociação de significados"?
Não deu para abordar essa questão naquela tarde, eram inúmeras as colocações e a hora bem avançada.
O que me ocorreu, depois, é que, naquele exato momento, estavamos negociando o significado da palavra "negociar". Isso só é possível se considerarmos correta a observação de Vigostski, relativa ao caráter mutante do significado da palavra.
Se entendermos que sim, o significado da palavra não é estático, mas depende sempre de sua história para um coletivo, depende de quem a pronuncia, para quem a dirige, em que momento e contexto, com que tom, podemos então reconhecer que na comunicação é sempre necessária uma busca da "estabilidade" do signficado da palavra.
Negociar, nesse sentido, é marcar os limites e as condições para que a palavra possa ser compreendida. Como nas demais negociações, é preciso ceder, reformular, encontrar um terreno comum de reconhecimento.
Essa é uma rotina que incorporamos com tanta naturalidade que só ocasionalmente nos damos conta dela.

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quarta-feira, julho 02, 2008

Vigotski, as funções mentais e a dinâmica do psiquismo

Em "O social e o cultural em Vigotski", Angel Pino aborda o caráter vago que o termo "função" possui. Tema difícil, e ele consegue ser até poético:
"Embora não saibamos qual foi a razão da escolha deste termo nem o sentido exato que ele lhe atribui, é certo que não tem nada a ver com o sentido que lhe é dado pelas teorias funcionalistas, em psicologia e em outras áreas do conhecimento. Como pode se verificar no texto onde ele trata especificamente da gênese das funções mentais superiores (Vygotsky 1997), o autor utiliza, indistintamente, diferentes termos para referir-se a mesma coisa: 'formas superiores de conduta', "formas mentais", "processos mentais superiores" e "funções mentais superiores". De qualquer maneira, ao conceber o psiquismo como um conjunto de funções e estas como sendo de natureza cultural, não biológica, Vigotski se distancia tanto das teorias funcionalistas e estruturalistas quanto das concepções biologizantes e mecanicistas.
Se o caráter vago do termo "função", tal como é usado por Vigotski, coloca certas dificuldades conceituais, por outro lado ajuda a conceber o psiquismo como algo dinâmico, que está sempre se (re)fazendo e em perpétuo movimento. Algo que nos faz pensar na criação ininterrupta do velho no novo, do significado dado na flutuação do sentido. Entendido assim, o termo função permite ver as 'funções mentais' de que fala Vigotski como um acontecer permanente. Conservando um certo grau de consistência e de continuidade, apresentam-se sempre sob o signo do novo. É claro que a capacidade de pensar, de falar, de registrar em memória etc. são funções permanentes da pessoa, mas sujeitas às leis históricas das condições da sua produção: produção da fala, das idéias, das lembranças etc. Essas funções são portanto função dessas condições de produção, as quais não permanecem sempre necessariamente as mesmas. O que nós pensamos, o que nós dizemos, o que nós rememoramos depende das condições concretas em que isso ocorre. Se isso não impede que idéias, discursos ou lembranças possam ser reproduzidas no tempo com uma certa persistência, elas têm de ser cada vez (re)pensadas, (re)ditas ou (re)memoradas. Em cada instante algo novo está prestes a emergir. Neste conceito de função, fundem-se, sem se confundirem, o ato de funcionar e o funcionar de uma certa maneira; o ato de produzir e o produto desse ato. Assim, as funções de pensar, de falar, de rememorar concretizam no ato de pensar, de falar ou de rememorar alguma coisa cuja significação pode não ser a mesma em cada instante. Na sua opacidade e ambigüidade, o termo função permite romper com uma visão tradicional e nada esclarecedora de psiquismo, concebido como um conjunto de realidades ontológicas, estáticas e a-históricas, as 'faculdades da alma' dos antigos (a inteligência, a afetividade, a memória etc.), assimiladas às funções biológicas ligadas a determinados órgãos do corpo. O termo função, ao contrário, permite articular o que é conquista da espécie, que constitui as suas características e, por conseguinte, é algo acrescido à evolução biológica, com o que deve ser conquista de cada indivíduo singular. Articular o que está dado na natureza da espécie Homo Sapiens (possibilidade de pensar, falar, sentir, rememorar etc.) com o que não está e tem de ser adquirido por cada membro dessa espécie (tornar-se um ser que pensa, fala, sente, rememora etc. alguma coisa concreta). Isso quer dizer que o que pensamos, falamos, sentimos, lembramos etc. não é algo que já está pronto, à disposição do indivíduo para o seu uso. Enquanto objetos semióticos, as idéias, as palavras, os sentimentos ou as lembranças têm de ser produzidos. E, mesmo depois de terem sido produzidos, quando já passaram a fazer parte do repertório de experiências registradas em memória, têm de ser 'dados à luz' por um novo ato de pensar, falar, sentir, rememorar etc."

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terça-feira, setembro 04, 2007

Cognição mais além do indivíduo

"A mente é socialmente distribuída entre as pessoas, e os processos mentais tem base em objetos que as corporificam e as representam. A cognição se extende mais além do indivíduo;a incorporação vai mais além da pele".
Essa frase é do um artigo "Blending out of the background: Play, props and staging in the material world", do professor Chris Sinha (o sobrenome é indiano, em português soa muito familiar, né?), da Universidade de Portmouth, na Inglaterra.
Assisti uma palestra dela ontem, na Faculdade de Letras, na USP (a convite do Prof. Leland Mccleary,a quem admiro muito) e achei a perspectiva interessante. A idéia é que "representação" não acontece como um processo isolado na cabeça de cada um, mas está materializada também nos objetos com os quais interagimos, e também nos gestos e nos rituais sociais.
Por exemplo: ao ver um chapéu e identificá-lo como "cowboy", não é só a minha mente que funciona como um sistema identificador e atribui sentido àquele objeto, mas o próprio objeto que trouxe em si, corporificado por uma tradição cultural da qual faço parte, a representação.
Chris Sinha retoma Vigostski, reforçando a idéia que a cognição está sempre incluída na vida social, é impensável numa perspectiva mentalista e individualista.
Ele agrega à Vigostki algumas reflexões do "pragmatismo", leituras que preciso ampliar.
É bom saber que o que ando lendo faz sentido para pesquisadores contemporâneos, empenhados em atualizar idéias que não são tão novas assim.

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